Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013

Rui Tavares e o Livre

Algumas das coisas mais inacreditáveis que tenho assistido ultimamente são os ataques (e respectivos argumentos) dirigidos ao novo partido da esquerda, o Partido Livre. Compreendo o vaticínio que o mesmo não vai ter sucesso e até algumas críticas de conteúdo ou estratégia, mas os ataques de que o este partido surge para o Rui Tavares garantir um "poleiro" (com a sua conotação negativa igual à de "tacho") no Parlamento Europeu ou até a argumentação de que há muitos partidos de esquerda são inacreditáveis se tivermos em conta que é o discurso que vejo em malta pela blogosfera e no twitter que fazem parte talvez de um grupo social informado e sem grande ligação partidária (isto é, sem ter um interesse directo em fazer "real politiks").

 

Sobre a conversa do "tacho", enjoa a conversa dignos dos nossos facebooks da desinformação (espero ver esta conversa da treta lá e evitar responder à maior parte das baboseiras que lá se metem). Fica um post do David Crisóstomo a explicar a parvoíce deste argumento, dado que o próprio Rui Tavares recusou uma solução fácil: candidatar-se pelo PS.


E se o Rui Tavares tivesse criado um partido porque os outros não o queriam? Ora bem, há uma coisa chamada democracia. Parece que custa a muita gente, mas os cidadãos portugueses são livres de se candidatar a vários cargos formando um partido (que tem de ter milhares de assinaturas, responsabilidades e financiamentos).


Por fim, o problema português não é existirem muitos partidos, é o facto de a maior parte deles estarem na mesma área política. Em Portugal, os cinco partidos/coligações regularmente eleitos fazem parte apenas de três famílias europeias. PSD e CDS estão nos Populares Europeus (PPE), o PS na Internacional Socialista e a CDU e o BE estão no GUE (Esquerda Unitária Europeia). Ora se o PPE e o S&D (Aliança dos Socialistas e Democratas Europeus) são claramente os dois maiores grupos parlamentares quer no Parlamento Europeu quer em boa parte dos países europeus, o GUE aparece no PE apenas como a sexta força.


A Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa (ADLE) é a terceira maior família europeia (fazendo parte até do arco de governação em muitos países) e não tem qualquer representação portuguesa que se adivinhe a curto-prazo. A quarta força vêm dos Verdes Europeus, a filial cá é um partido satélite do PCP (Partido Ecologista "Os Verdes) tanto que, no Parlamento Europeu, situa-se... no GUE. A quinta é a família dos eurocépticos (Reformistas e Conservadores Europeus).

 

Este partido aparenta encaixar nos tais Verdes Europeus ou numa linha próxima da social-democracia (mas não tanto do PS). Com o esgotar dos "temas fracturantes", o Bloco de Esquerda é apenas um conjunto de partidos de extrema-esquerda e vê com maus olhos a parte que quer o levar para uma social-democracia mais à esquerda. Com isto, surge um espaço vazio entre o radicalismo de esquerda (PCP e BE) e a social-democracia (PS). O Bloco é que está a mais neste momento, não sendo um partido entre o PCP e o PS. Mais, o Bloco nunca se dispôs a negociar coligações com o PS. Essa é que é a grande inovação da proposta do Rui Tavares.

 

Conclusão, em termos de clarificação política, este Partido Livre (não gosto do nome, mas pronto) é de salutar. Não é a minha área política, mas é positivo que haja um partido que vá pressionar o PS a clarificar as suas posições. Mesmo que não houvesse o tal espaço que expliquei acima, seria positivo por isto só.

 

Nota: estranho o pouco entusiasmo do Daniel Oliveira.

escrito por João Saro às 19:16
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